VL foi jogador de futebol em Portugal e no Brasil antes de aterrar em Inglaterra, onde aproveitou para tirar um curso de Finanças que fez dele uma estrela dos investimentos online e popularizou-o no universo de jogadores famosos como Ronaldinho Gaúcho. Foi preso em Lisboa na posse de 11 cartões de crédito clonados
Rui Gustavo
Jornalista
Quando entraram no quarto 104 do Evolution Valbom Hotel, os inspetores da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica (UNC3T) da Polícia Judiciária repararam de imediato numa peça que não fazia parte do mobiliário habitual de uma unidade hoteleira de quatro estrelas: uma espécie de paralelepípedo, um cruzamento entre uma torradeira e uma impressora que, na verdade, é uma máquina de copiar e clonar cartões de crédito.
O homem instalado naquele quarto há quatro noites chama-se VL e é conhecido no mundo paralelo das redes sociais como Vitinho Preto. Foi jogador de futebol – jogou em pequenos clubes de Portugal, Brasil e Inglaterra – e tirou um curso de Finanças no Reino Unido que fez dele um especialista em investimentos online. Um ‘trader’ citado em revistas como a “Isto É” ou a “Veja” e entrevistado no site “Terra” como um exemplo de sucesso da migração brasileira.
No Instagram, Vitinho apresenta-se como “entrepreneur e financial consultant”, “ex-futebolista” e “figura pública”. Para o provar, publica fotos com astros do futebol como Ronaldinho Gaúcho, ex-campeão do mundo, melhor jogador do planeta em 2004 e 2005.
A viagem a Lisboa também está documentada nesta rede social, com vídeos de elétricos amarelos a percorrer os carris da cidade ao som de Amália Rodrigues, imagens da Sé e da Rua Augusta. Mas na hora de pagar as contas, um alarme soou. Victor usou um cartão de crédito para pagar o hotel e refeições numa pastelaria no centro de Lisboa.
Assim que o dinheiro saiu das contas, um cidadão belga entrou em contacto com a gerência do hotel, avisando para o facto de o dinheiro ter sido descontado do seu cartão que continuava na sua posse. Ou seja, tinha sido clonado. Vitinho foi detido no momento em que regressou ao hotel e foi presente a um juiz que o libertou, apesar de o Ministério Público (MP) ter pedido prisão preventiva por considerar que o perigo de fuga é evidente. Terá de pagar uma caução de dez mil euros para aguardar o desenvolvimento do processo em liberdade.
Eduardo Maurício, advogado de Vitinho, garante que o cliente está inocente: “Victor nunca praticou nenhum delito e foi induzido em erro por um terceiro que o colocou na situação delituosa objeto do processo.”
Segundo o MP, Vitinho estava na posse de 11 cartões clonados que usou para pagar a conta de cerca de mil euros no hotel e de 140 numa pastelaria. Os cartões e a máquina de clonagem foram apreendidos e serão usados como prova numa eventual acusação.
Numa entrevista ao site “Terra”, na qualidade “expert do sector”, VL comentou a queda em desgraça do fundador da FTX: “Quando acontece algo como aconteceu no caso do fundador da FTX, isso abala o mercado e a credibilidade de empresas no segmento. As pessoas ficam receosas e acabam optando por sacar suas moedas, o sector de cripto se voltam para uma possível crise e nenhuma exchange fica de fora.” Sam Bankman-Fried foi condenado a 25 anos de prisão por fraude nos criptonegócios.
Vitinho está indiciado pelos crimes de uso de cartões ou outros dispositivos de pagamento contrafeitos e de intenção de falsificar cartões de crédito. Segundo o MP, “o arguido munido de um leitor/gravador de bandas magnéticas, da marca Deftun, fabricou pelo menos 11 cartões bancários” que usou para pagar a estada no hotel e despesas com alimentação. A pena por estes crimes pode chegar, no máximo, aos 12 anos de prisão.
Na imprensa brasileira, Victor é considerado um “‘trader’ que vem se destacando nas redes sociais com dicas de aplicações financeiras e revelando os segredos de grandes atores de Hollywood na hora de administrar e investir”. Segundo o site “Terra”, o ex-jogador criou um curso virtual sobre como dar os primeiros passos no mercado financeiro e, em parceria com uma corretora, oferece aos clientes uma tecnologia através da qual um robô conduz as operações no mercado de câmbio, “gerando resultados diários com base na compra e na venda de divisas internacionais”. Chama-se Investor Bot e ainda está disponível nas redes sociais do agora arguido. “Aprendi uma forma diferente de marcar golos”, congratulou-se Victor na entrevista.






